segunda-feira, 7 de maio de 2007

Nacionalismo !






"vox populi…"
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"Deixem a Madeira e o seu povo trabalhar"

"Portugal não pode continuar doente com a permissividade em males sociais graves como a droga.
Doente com absurdos a que chamam causas fracturantes, mas que mais não são do que decadência, inversão de valores, ausência de cultura, tragédias familiares e aumento da criminalidade".

Alberto João Jardim (06 de Maio de 2007)
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Para aqueles que não conseguem ver para além da viseira do capacete dogmático, as experiências eleitorais de domingo passado reunem uma lição dificil de olvidar.

1.
Dois posicionamentos nacionalistas (na Escócia e na Madeira) são correspondidos com vitórias indiscutíveis.
João Jardim passa dos 53,6% de 2004 para 64,2%, e o Partido Nacionalista Escocês (SNP) consegue ganhar as eleições autonómicas, obtendo mais votos que o partido do sr Blair…

2.
Um partido, o francês "Front National", defensor do "nacionalismo pátrio", não participou na 2ª volta das presidenciais francesas porque já tinha sido eliminado na 1ª volta, ficando por detrás dos dois finalistas e do "paraquedista" Bayrou…

A realidade é de um resplendor fulgurante!
O discurso nacionalista ou se faz desde um posicionamento da nacionalidade, não de aglomerado de nacionalidades (País), e é correspondido pelo povo respectivo, ou "veste a máscara" da mitologia "Pais-Pátria" e a população vota nas escolhas do "sistema".

Relativamente aos que se dizem nacionalistas, transcrevendo a metáfora, diria que se tropeçam várias vezes na mesma pedra, ou são uns enganados compulsivos, ou são uns ingénuos, ou... cumprem uma missão inqualificável!
Até quando?

"Defendo o princípio da unidade diferenciada, em que a Madeira, no quadro da unidade nacional, tem direito ao seu sistema de desenvolvimento próprio e diferente, ficando para o Estado apenas as competências que consubstanciam a essência, e só esta, da mesma unidade nacional"
(dixit João Jardim)

Para a defesa e afirmação do nacionalismo que nos concerna, o primeiro passo é, indubitavelmente, a Regionalização!

4 comentários:

Anónimo disse...

Mas aqui é preciso algum cuidado para não se ultrapassar a fronteira, real, que separa o nacionalismo do regionalismo. Nem tudo é nacionalismo, naturalmente.

António Lugano disse...

Creio que os vocábulos "nação" e "nacionalismo" estão carregados de conceitos (quantas vezes incongruentes) que lhes foram "caindo em cima" com a passagem dos acontecimentos e... do tempo.
Um dos aspectos em que tenho insistido é o de, antes de discutir sobre os "termos", assegurarmo-nos de que interiorizamos significados idênticos.
Aliás, um dos cavalos de batalha do "nacionalismo" (como filosofia) tem sido o de "normalizar" (no sentido etimológico) a linguagem usada, o que ainda não foi conseguido, contrariamente ao processo iniciado por Adorno e Oppenheimer (Frankfurter Schule) no que respeita ao marxismo...

Depois deste pequeno intróito gostaria fazer notar que "regionalismo" é um conceito geográfico, enquanto "nacionalismo" é um conceito metapolitico.
Se conviermos que "nação" significa uma "unidade etno-cultural" (localizada), o facto de essa localização ser um País ou uma Região desse País, não altera o conceito.
Uma Região pode, ou não, ser coincidente com uma "nação".
O mesmo se passa com um País, uma construção politica normalmente (indevidamente) confundida com "nação".

No caso vertente da Madeira, estamos perante uma manifesta unidade etno-cultural, portanto perante uma "nação".
Compreendo que séculos de desinformação, a que se associa a manipulação da linguagem exercida pelo "politicamente correcto", conduz a que, ao nomear "nação", as pessoas visualizem um território com fronteiras, hino e bandeira!
Tal não é o significado de "nação".
Várias unidades etno-culturais (preservando a sua identidade) podem perfeitamente manter uma proximidade cultural, económica e tecnológica, por exemplo, no seio de uma confederação (descentralizada, por definição).

Cordial Saudação

Anónimo disse...

Mas a questão, comigo, não é essa do conceito, porque eu também entendo a nação como um continuum etno-cultural, ou seja, a questão é que, por isso mesmo, para falarmos de nações diferentes é necessário verificar um corte nesse continuum...ora, no caso português, eu creio que não existem essas rupturas, não de forma significativa. Vejamos a Madeira, julgo que partilha com o resto do país uma "mesma Grande História", entendida como "narrativa principal de um povo", falam a mesma língua que os continentais, estão marcados pelas mesmas tradições religiosas e o povo é de tipo racial similar. Portanto, o único corte, a única fonte de distanciamento em relação ao restante Portugal é induzida pela geografia, e julgo que neste caso, atendendo aos restantes factores de unidade,a geografia não justifica que se fale de uma nação diferente. Essa é a minha impressão, claro, o professor dir-me-á por que não concorda.

Os melhores cumprimentos

António Lugano disse...

Prezado Rodrigo
Estamos de acordo em que, sociologicamente, "nação" é um continuum etno-cultural… porém, falta anotar: "localizado"…
Poderá argumentar-se que é uma obviedade, e que um continuum etno-cultural está por inerência "localizado", o que aceito, notando contudo que muitas vezes a não-menção do óbvio leva-nos ao entimema e, como no caso que analisamos, ao paralogismo.
A "localização" ("território") é de uma extrema importância na compreensão do conceito "nação"!

Se olharmos para a Grécia da Antiguidade, constamos que o distanciamento territorial sempre foi uma razão "de facto" para o desenvolvimento "localizado" de sistemas linguísticos diversos (com uma origem comum no indo-europeu) que conlevaram a expressões culturais próprias.
A cultura micénica surgiu, não porque os habitantes de Creta fossem etnicamente diferentes dos do continente, mas porque o factor "localização" foi determinante, e a "nação" micénica foi uma consequência natural. Aliás, o que eram Atenas ou Esparta senão "nações" politicamente organizadas como Estados?
Caso paradigmático é o das sete ilhas do mar Jónico (entre a Grécia e a Itália) que, com uma mesma formatação étnico-cultural (expressavam-se em grego-koiné), actuavam como "nações" (que eram "de facto") embora com um Senado unificado (solução federal ou confederal). É somente no século XIX que, primeiro com os russos e, mais tarde, sucessivamente com os turcos, os franceses e os ingleses, que a então denominada "República das sete ilhas" foi obrigada a "normalizar-se", e é "oferecida" à Grécia quando da coroação de Jorge I, rei dos Helenos.

Do exposto, podemos concluir :
1. o "isolamento" (factor "território"), aliado a uma unidade etno-cultural, implica naturalmente um conceito de "nação";
2. o "facto nação", não origina implicitamente uma obrigatoriedade de separatismo, de independência política relativamente a um contexto cultural mais abrangente.

A ocorrência em causa (Madeira), insere-se no acima exposto, e o facto de considerarmos sociologicamente a Madeira como uma "nação", não significa, nem implica, de modo algum, uma determinação política causante de um separatismo, relativamente a um contexto cultural mais amplo.
Considerando que presentemente o conceito de "nação" é assumido com o significado de "país" (com toda a simbologia adjacente), compreende-se a aplicação de denominações como "Região Autónoma", ou simplesmente "Região", sempre que não dependa de um Estado centralizado, e centralizador, mas sim de um Estado-Sintese (no sentido dialéctico) que mantenha a coerência das partes.
Uma solução que me parece perfeitamente acorde (projectando-a ao nivel geográfico europeu) com a proposta de "confederação europeia" que, quando aplicada, eliminaria os citados "Estado-Síntese".

Em Portugal, uma Regionalização (no âmbito referido), além do previsível impacto motivador em cada povo (e implícitamente no conjunto da população), implicaria um fortalecimento cultural e um renovado interesse pela "res publica", além de que seria como que uma "pré-visão" da Europa dos Povos, ou Europa das "nações" (no entido sociológico), numa possivel organização política "confederal".

O meu objectivo é pois, e sempre, o do fortalecimento da identidade europeia, mas partindo de uma base que consolide o carácter isentitário dos povos que a compõem.
Estou intimamente convencido, e infelizmente o dia-a-dia parece querer dar-me razão, de que se não actuarmos urgentemente sobre os núcleos nacionais (sentido sociológico, não politico), o esvaecimento cultural e a miscigenação étnica são de tal forma acelerados, que muito difícilmente evitaremos uma Europa repleta de produtores-consumidores, absolutamente desinteresados por qualquer tipo de proposta identitária, o que provocará a consecução da sociedade do "panem et circenses", já tão magníficamente denunciada, no segundo século da Era Actual, por Juvenal (Decimus Iunius Iuuenalis - livro IV das Sátiras).

Com o mais elevado apreço
Antonio Lugano