domingo, 28 de janeiro de 2007

Viagens na minha terra...


Memórias de Tormes

Viajando no comboio do Douro (1) desde o Porto, após cerca de 1 h 40 mn desembarcamos na estação de Aregos que, por circunstâncias decorrentes de "A cidade e as Serras" do Eça de Queiroz, também é conhecida como Tormes, próximo da povoação de Vila Nova, onde se encontra a "Casa de Tormes", a mansão onde residiu o citado escritor.

Desde a estação de Aregos/Tormes decidimos caminhar até à casa de Eça, hoje propriedade da Fundação Eça de Queiroz, um passeio bonito, mas cansativo… cerca de 300 metros sempre, sempre a subir !

O caminho íngreme e alpestre da estação até à quinta é simplesmente maravilhoso.”
Eça de Queiroz in "Carta a Emília de Castro", datada de 28 de Maio de 1892

No alto daquelas serranias estamos num miradouro de beleza sobre o rio, lá no fundo, e até onde a vista alcança contemplamos uma paisagem deslumbrante nas lonjuras d' além Douro, o "Durus" latino, derivado do celta "dwr" ("água").

Aregos (S. Romão de Aregos), que já no século X era nomeada como "villa de Sancti Romano", o "Castro Arecos" dos celtas, é para mim algo mais que a Tormes do Eça pois, aí nasceu António, meu avô paterno, e sua mãe Joana, que ainda conheci.

A casa de Tormes recorda Eça, como a casa de Romarigães" lembra Aquilino e a casa de S. Miguel de Seide relembra Camilo…
Casas com carácter para homens com temperamento. Um apelo ao lar… um grito à tradição !

Mas, as serras não são apenas paisagem… são gente, costumes e formas de ser…
De ser, de sobreviver, viver e conviver.

Serra acima, os contrastes são evidentes. Há lugares onde o tempo se perdeu por caminhos e encruzilhadas e não mais encontrou o rumo. Nas aldeias ainda se amanha o trigo para renovar as coberturas de colmo das casas de granito, mói-se o trigo e o centeio em seculares moinhos de água, assa-se o cabrito e o anho em fornos de lenha e cozem-se as falachas (doces de castanha).
Romarias, festivais de folclore e feiras não faltam nestas paragens. Se os dias são de festejo, expõe-se o artesanato, o barro preto de Fazamões (do outro lado do rio), os cestos de vime ou as toalhas de linho. Canta-se, dança-se, bebe-se e provam-se iguarias.

E uma das formas mais tradicionais de conviver realiza-se habitualmente à mesa, pelo que, seguindo o conselho de Eça, "atacamos" a ementa, acompanhada de um excelente tinto do Douro.

Começamos pelo "caldo de galinha" :
Desconfiado, provou o caldo que era de galinha e rescendia. (…)
Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes (…)
in "A Cidade e as Serras"

E, depois desta gastronómica "obertura", passamos lampeiros ao "corpo da sinfonia", um consistente "arroz de favas com chouriço" :
E pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. (…)
Tentou todavia uma garfada tímida (…)
Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado: - óptimo!...
Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia!
in "A Cidade e as Serras"

Um pouco de creme queimado e um sorvo de vinho de Porto completa-nos o repasto !

Após uma barulhenta e bem animada partida de dominó, disputada numa pequena adega, rodeados de pipos e de salpicões pendurados nas travessas do tecto, assistimos a um esplendido e colorido por do Sol que nos acompanha no regresso à grande urbe.


O dia terminado, vencendo timidamente o sono e o cansaço que nos invadem, vamos lendo o nome das estações … Mosteirô, Juncal, Marco de Canaveses, Paredes, Ermesinde…
Decididamente envoltos no manto de Morfeu, acreditamos ver, sentado frente a frente, um "peraltado" cavalheiro de grandes bigodes… Eça acompanhava-nos !
A digressão valeu a pena ! Aliás, como dizia Pessoa, "vale sempre a pena quando…" !
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(1) A linha ferroviária do Douro uma notável obra de engenharia que durou 12 anos, concluída em 1887, tem 203 Km de extensão desenvolvendo-se na sua maior parte junto às margens do rio Douro, ligando o Porto ao Pocinho.
Há cerca de 15 anos que o trajecto de Pocinho a Barca d'Alva (28 Km) foi abandonado por razão de rendibilidade, o que não impede que se faça o percurso… andando, junto ao rio, cerca de 8 horas sobre a antiga via ferroviária… somente para iniciados na marcha !
Também interessante é viajar nos comboios históricos do Douro, em carruagens do início do século XX, movidos por locomotivas Henschel, a vapor.

11 comentários:

Anónimo disse...

Línea Fregeneda/Barca de Alva, suprimida por Enrique Barón Crespo, en 1984. Baron Crespo, tio de Lucas Baron Plana. Durante su mandato accidentes de aviacion: fallecieron, entre otros, Fanny Cano y Cagigal

Anónimo disse...

Lo sabroso (en materia gastronómica) comienza en Vilar Formoso.....

Anónimo disse...

Había que hermanar el Tormes de Eça de Queiroz con la Ciudad del Tormes, de Unamuno y Fray Luis de León........

Anónimo disse...

Perros dóciles en Portugal: no caminho de volta, conhecemos o Lorde, um golden retriever, castanho, muito bonito que simpatizou connosco e nos acompanhou no caminho de regresso.......

Anónimo disse...

O bom neto

Anónimo disse...

lástima que fracasaran las operaciones "doble e" (sena, tormes) 1973 y la "doble fila" y "miño" en 2004

Anónimo disse...

jacinto de tormes

Anónimo disse...

tormo

Anónimo disse...

jacinto galión

Anónimo disse...

jacinto galión; un nivel
lazarillo de tormes, pícaro español.....

Anónimo disse...

Antonio Eça de Queiroz, jornalista, neto de José María, Facebooker.....